2.3.17

A ATRAÇÃO FATAL DA LOUCA OBSESSÃO


O nome dela era Rosângela. Ela deve ter me visto em algum canto da escola e, por alguma razão, resolveu que eu seria seu namorado. Ela começou invadindo a minha classe na hora do intervalo (ok, a gente dizia recreio). Enquanto todo mundo estava lá fora, eu ficava sozinho com um livro. Aí, ela apareceu, com um cabelo longo que não via água corrente há meses, ela devia gostar dele assim, uma vez que o enfiava na boca a cada cinco minutos.

- Tá fazendo o quê? Que livro é esse? Tem tantas páginas, como tem coragem de ler isso? (eu odeio gente que diz isso, coragem ou paciência, o hábito da leitura é na verdade um prazer).
Eu fiquei na minha, só ''ouvindo'' ela falar, sem parar para respirar. Ela foi embora e nos dias seguintes surgiram os presentes, cada vez que eu deixava o material escolar sozinho na sala de aula. Ela rabiscou um livro meu escrevendo coisas melosas (grrrr) e um dia, wow, encontrei uma calculadora na minha mochila (ela abriu a minha mochila??? Nunca toque na minha mochila!!!). Era uma daquelas calculadoras com dezenas de botões, nenhuma pessoa normal sabe mexer naquilo. Mais tarde, descobri que ela a roubou do quarto do próprio irmão. Eu comecei a temer pela vida do meu coelho (sim, eu tinha um).

- Você trabalha numa vídeo locadora? Que legal. Onde fica? Vou passar lá e alugar um filme (atração fatal???). 
Eu não disse nada, mas ela descobriu sozinha. Eu a vi passar na frente da locadora, dando um tchauzinho. Estava na hora de colocar minha mente maléfica para funcionar. Ora, a coisa mais maléfica que eu conheço está aqui mesmo, ao meu lado, no balcão da locadora.

- Aletéia, queridinha, pode me fazer um favor?
- Qualquer coisa, meu amor.
- Pode fingir que é minha namorada?
- Vai se fuder.
- Pode dar uma surra numa menina que tá me perseguindo?
- Me diga quando e onde, bro.




 Meio dia e trinta, o portão da escola ainda tá fechado. A calçada tá cheia de alunos. Todos usando aquele maldito uniforme azul-bebê. Quando a escola pediu pros alunos votarem no novo uniforme, eu escolhi o branco discreto, mas a maioria escolheu o azul-bebê, crianças idiotas. E aí, no meio de todo aquele azul-bebê, surgiu a Aletéia. O plano era esse, ela só precisava aparecer. Mas ela se produziu. Botas altas demais, couro preto, mini shorts, cabelo loiro com mechas pretas, soltos em baixo, bandana de rock em cima, sombras nos olhos e ... Ah não, ela trouxe a Lilith.

Lilith é alguém que precisa de um paragrafo próprio. Lilith é uma boneca do tipo bebê recém nascido. Téia tirou suas roupas de bebê e, com linha e agulha, prendeu a boneca, numa pose de crucificação, nas costas da jaqueta de couro. Com um pincel atômico, ela desenhou tatuagens por todo o corpo da boneca. Símbolos e nomes de bandas de rock. Haviam pregos, agulhas e brincos, por toda parte. Lilith era uma obra de arte que nunca seria finalizada. Mudou bastante desde a última vez em que eu a vi, ganhou um ''Black Sabbath'' na testa e um par de chifres de cabra.

Ela me viu e veio na minha direção.
- Cadê a vagabunda?
- Perto da primeira árvore, não olha, caramba, falei pra não olhar.
- Ahahaha, como é feia. Não quer mesmo ficar com ela?
- Não.
- Nem por pena?
- Pode parar?

Depois de alguns minutos, o portão abriu. Téia se despediu de mim com um beijinho no rosto. Pelo ponto de vista da Rosângela, poderia ter sido na boca. E aí ela seguiu na direção da mocinha (essa não). Ficou parada a alguns poucos metros da menina, mascando seu chiclete com a boca aberta, avaliando a Rosângela de cima a baixo e brincando com o canivete (não combinamos isso!!!). Depois se virou e foi embora, com a Lilith crucificada logo atrás.
E isso foi o suficiente, a Rosângela nunca mais chegou perto de mim. Mas vários garotos me cercavam, estavam apaixonados pela Aletéia e queriam saber coisas a respeito dela. Ficaram mais obcecados quando eu disse que eu e ela não estávamos mais juntos - onde ela mora? onde ela estuda? como faço para cruzar com ela na rua? - a Téia me mataria se um bando de garotos aparecesse na locadora atrás dela, eu não faria isso, eu lhe devia um favor. E agora precisava pensar num jeito de devolver uma certa calculadora.
 

12 comentários:

Anónimo disse...

Tá aí. Quando eu digo que as histórias reais do Alessandro parecem ficção literária, ou filme, ninguém acredita. ehehhehehehe. Alê, seu gostoso, desde sempre provocando loucuras.

Anónimo disse...

Vc disse uma vez que não tinha mais histórias dá Aletéia. Me enganou hahahahahahah

Anónimo disse...

Que dó gente. Ela só estava apaixonada querendo impressionar.

Pablo Croft disse...

Meio que travei em relação às idade... Trabalhava na locadora mas se referiu a todo o ambiente como algo da quinta série. Estava com quantos anos nessa época? Huahua

Kayo Ewing disse...

Alessandro vc tem que escrever um livro, é uma aventura melhor que a outra rsrs

ALESSANDRO SKYWALKER disse...

hey, adolescentes costumavam trabalhar, hoje eu não sei dizer...

ALESSANDRO SKYWALKER disse...

essa história com a Aletéia me veio do nada. Se eu soubesse que um dia iria escrever sobre isso, teria feito um diário na época.

Thiago disse...

Alessandro, hoje em dia você ainda tem notícias da Aletéia? Ela sempre pareceu como se fosse uma obra/resultado de um ritual profano/macabro que caiu na video locadora. XD
Fico curioso em saber qual foi o destino dela. O mais legal seria saber que houve um mega plot twist e hoje ela teria se tornado uma evangélica mega fervorosa.

ALESSANDRO SKYWALKER disse...

ela se mudou para são paulo capital nos anos 1990, nunca mais a vi

Confissões disse...

Alessandro suas histórias são hilarias, uma melhor que a outra. Você devia escrever um livro.

Anónimo disse...

Agora só falta a história da calculadora. O irmão dela era gostoso? Hehehe

ALESSANDRO SKYWALKER disse...

humm, conheci apenas a mãe, o irmão não